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A felicidade sentimental é a recompensa
acessível a todos os que completarem o ciclo mínimo de
evolução emocional.
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A TERAPIA DO AMOR
O amor é um sentimento que faz parte da
"felicidade democrática", aquela que é
acessível a todos nós. É democrática a
felicidade que deriva de nos sentirmos
pessoas boas, corajosas, ousadas, etc. A
"felicidade aristocrática" deriva de
sensações de prazer possíveis apenas para
poucos: riqueza material, fama, beleza
extraordinária. Felicidade aristocrática tem
a ver com a vaidade e é geradora inevitável
de violência em virtude da inveja que a
grande maioria sentirá da ínfima minoria.
É difícil definir felicidade: podemos, de
modo simplificado, dizer que uma pessoa é
feliz quando é capaz de usufruir sem grande
culpa os momentos de prazer e de aceitar com
serenidade as inevitáveis fases de
sofrimento. É impossível nos sentirmos
felizes o tempo todo, mas os períodos de
felicidade correspondem à sensação de que
nada nos falta, de que o tempo poderia parar
naquele ponto do filme da vida.
Apesar de ser acessível a todos, o fato é
que são muito raras as pessoas que são bem
sucedidas no amor. Ou seja, devem existir um
bom número de requisitos a serem preenchidos
para que um bom encontro aconteça. Não tem
sentido pensar que a felicidade sentimental
se dê por acaso; não é bom subestimar as
dificuldades que podemos encontrar para
chegar ao que pretendemos; as simplificações
fazem parte das estratégias de enganar
pessoas crédulas.
O primeiro passo para a felicidade
sentimental consiste em aprendermos a ficar
razoavelmente bem sozinhos. Trata-se de um
aprendizado e requer treinamento, já que
nossa cultura não nos estimula a isso. Temos
que nos esforçar muito, já que os primeiros
dias de solidão podem ser muito sofridos.
Com o passar do tempo aprendemos a nos
entreter com nossos pensamentos, com
leituras, música, filmes, internet, etc.
Aprendemos a nos aproximar de pessoas novas
e até mesmo a comer sozinhos. Pessoas
capazes de ficar bem consigo mesmas são
menos ansiosas e podem esperar com mais
sabedoria a chegada de amigos e parceiros
sentimentais adequados.
Temos que aprender a definir com precisão
nossos sentimentos. Nós pensamos por meio
das palavras e se as usarmos com mais de um
sentido poderemos nos enganar com grande
facilidade.
Amor é o sentimento que temos
por alguém cuja presença nos provoca a
sensação de paz e aconchego. O aconchego
representa a neutralização do vazio, da
sensação de desamparo que vivenciamos desde
o momento do nascimento.
O aconchego é um "prazer negativo", ou seja,
a neutralização de uma dor que existia nos
leva de uma condição negativa para a de
neutralidade.
Amizade é o sentimento que
temos por alguém cuja presença nos provoca
algum aconchego e cuja conversa e modo de
ser nos encanta. Segundo essa definição, a
amizade é sentimento mais rico do que o
amor, já que a pessoa que nos provoca o
aconchego - apesar de que menos intenso e, por isso mesmo, gerador de menor dependência
- é muito especial e desperta nossa
admiração pelo modo como se comporta moral e
intelectualmente.
Sexo é uma agradável sensação de excitação
derivada da estimulação das zonas erógenas,
de estímulos visuais e mesmo de devaneios
envolvendo jogo de sedução e trocas de
carícias tácteis. É evidente que a
sexualidade envolve questões muito
complexas, que não cabe aqui discutir. O sexo e amor
correspondem a fenômenos completamente
diferentes, sendo que o amor está
relacionado com o "prazer negativo" do
aconchego e o sexo é "prazer positivo", já
que nos excitamos e nos sentimos bem mesmo
quando não estávamos mal; o amor nos leva do
negativo para o zero, ao passo que o sexo
nos leva do zero para o positivo. Amor, sexo
e amizade podem existir separadamente e
também podem coexistir.
A mesma pessoa pode nos provocar aconchego e
desejo sexual mesmo sem nos encantar
intelectualmente; nesse caso, falamos de
amor e de sexo. Podemos estabelecer um elo
de amizade e sexo sem o envolvimento maior
do amor. Podemos vivenciar o sexo em estado
puro, assim como o amor - como é o caso do
amor que podemos sentir por nossa mãe, que
independe de suas peculiaridades
intelectuais e não tem nada a ver com o
sexo.
A escolha amorosa adequada se faz quando
o outro nos desperta o amor, a amizade e o
interesse sexual. A essa condição tenho
chamado de +amor, mais do que amor. Amigos
são escolhidos de modo sofisticado e de
acordo com afinidades de caráter,
temperamento, interesses e projetos de vida
(falo dos poucos amigos íntimos e não dos
inúmeros conhecidos que temos). A escolha
amorosa deverá seguir os mesmos critérios,
sendo que a escolha depende também de um
ingrediente desconhecido e indecifrável -
porque escolhemos esse e não aquele
parceiro? Não é raro que no início do
processo de intimidade a sexualidade não se
manifeste em toda sua intensidade. Isso não
deve ser motivo de preocupação, já que faz
parte dos medos que todos temos quando
estamos diante de alguém que nos encanta de
modo especial.
O medo relacionado com o encantamento
amoroso é que determina o estado que
chamamos de paixão: paixão é amor + medo!
Temos medo de perder aquela pessoa tão
especial e do sofrimento que, nessa
condição, teríamos. Temos medo de nos
aproximarmos muito dela e de nos diluirmos e
nos perdermos de nós mesmos em virtude de
seus encantos. Temos enorme medo da
felicidade, já que em todos nós os momentos
extraordinários se associam imediatamente à
sensação de que alguma tragédia irá nos
alcançar - o que, felizmente, corresponde a
uma fobia, ou seja, um medo sem fundamento
real. As fobias existem em função de
condicionamentos passados e devem ser
enfrentadas de modo respeitoso mas
determinado.
Para ser feliz no amor é preciso ter
coragem e enfrentar o medo que a ele se
associa. Esse é um exemplo da utilidade
prática do conhecimento: ao sabermos que o
amor - aquele de boa qualidade, que
determina a tendência para a fusão e provoca
a enorme sensação de felicidade - sempre vem
associado ao medo, não nos sentimos fracos e
anormais por sentirmos assim. Ao mesmo
tempo, adquirimos os meios para, aos poucos,
ir ganhando terreno sobre os medos e
agravando a intimidade com aquela pessoa que
tanto nos encantou.
Quando o medo se atenua, desaparece a
paixão. Isso não deve ser entendido como o
enfraquecimento ou o fim do sentimento
amoroso pleno. Sobrou "apenas" o amor. O que
acaba é o tormento, o "filme de suspense".
Fica claro que a coragem é requisito básico
para a vitória sobre o medo e a realização
do encontro amoroso. O encontro é menos
ameaçador quando somos mais independentes e
capazes para ficar sozinhos; nossa
individualidade mais bem estabelecida nos
faz menos disponíveis para a tendência à
fusão que é usual no início dos
relacionamentos mais intensos.
Quando o medo se atenua costuma aumentar o
desejo sexual. Se o parceiro escolhido for
também um amigo não faltarão ingredientes
para a perpetuação do encantamento.
Desaparece o medo mas não desaparecerá o
encantamento, a menos que a única coisa
interessante fosse o "filme de suspense" - e
se for esse o caso é melhor que o
relacionamento termine aí. No +amor assim
constituído, o encantamento só desaparecerá
se desaparecer a admiração.
A admiração só desaparecerá se houverem
abalos graves na confiança ou se tiver
havido grave engano na avaliação do
parceiro. É evidente que ao longo de um
convívio íntimo com uma pessoa com a qual
temos muita afinidade surgirão também
diferenças de todo o tipo. Não existem
"almas gêmeas", de modo que nem todos os
pontos de vista serão afinados, nem todos os
hábitos serão compatíveis, etc. É o momento
em que surge uma certa decepção e dúvidas
acerca do acerto da escolha.
É nesse ponto que percebemos que a escolha
amorosa se faz tanto com o coração como com
a razão: a admiração deriva de uma avaliação
racional do outro, ainda que o façamos de
modo camuflado porque aprendemos que o amor
é uma mágica determinada pelas flechas do
Cupido. A avaliação da importância das
diferenças que finalmente se revelaram
determinará a evolução, ou não, do
relacionamento. A serenidade na análise de
situações dessa natureza só pode acontecer
com pessoas portadoras de boa tolerância a
frustrações e contrariedades. Assim, a
maturidade emocional que se caracteriza pela
capacidade de suportarmos bem as dores da
vida é requisito indispensável para a
felicidade amorosa.
É preciso muita atenção, pois o medo
tende a se esconder atrás das dúvidas que
derivam das diferenças no modo de ser do
outro, do menor desejo sexual inicial e
também das eventuais dificuldades práticas
derivadas das circunstâncias da vida
daqueles que se encontraram e se encantaram.
O medo é sempre presente e se formos mais
honestos conosco mesmos saberemos melhor
separá-lo de seus disfarces. É por isso que o
conhecimento, que determina crescimento e
fortalecimento da razão, é tão útil para que
possamos avançar até mesmo nas questões
emocionais. A coragem é a força racional que
pode se opor e vencer o medo. Ela cresce com
o saber e as convicções e também com a
maturidade emocional que nos faz mais
competentes para corrermos riscos e
eventualmente tolerarmos alguns fracassos.
A maturidade moral dos que se amam é
indispensável para que se estabeleça a
mágica da confiança, indispensável para que
tenhamos coragem de enfrentar o medo de
sermos traídos ou enganados, o que geraria
um dos maiores sofrimentos a que nós humanos
estamos sujeitos. Não podemos confiar a não
ser em pessoas honestas, constantes e
consistentes. Assim sendo, este é mais um
requisito para que possamos ser felizes no
amor. Temos que possuir esta virtude moral e
valorizá-la como indispensável no amado. Não
há como estabelecermos um elo sólido e
verdadeiro com um parceiro não confiável a
não ser que queiramos viver sobre uma corda
bamba.
São tantos os requisitos básicos para
que o amor se estabeleça que não espanta
que ele seja tão incomum mesmo sendo uma
felicidade possível para todos. Temos que
nos desenvolver emocionalmente até atingir a
maturidade que nos permita competência para
lidar com frustrações. Temos que avançar
moralmente para nos tornarmos confiáveis.
Temos que ganhar conhecimento mais
sofisticado e útil sobre o amor para que
possamos ter uma razão geradora da coragem
necessária para ousarmos nessa aventura.
Temos que ter competência para ficar
sozinhos para que possamos desenvolver
melhor nossa individualidade e não nos
deixarmos seduzir pela tentação da fusão
romântica e a excessiva dependência, além de
podermos esperar com paciência a chegada de
um parceiro adequado.
As virtudes necessárias à felicidade
sentimental são todas elas "virtudes
democráticas", ou seja, acessíveis a todos e
cuja presença em uns não impede que surjam
nos outros - é sempre bom lembrar que o
mesmo não acontece, por exemplo, com o
dinheiro: para que uns tenham bastante é
inevitável que muitos outros tenham pouco.
As virtudes democráticas podem existir em
todos aqueles que se empenharem no caminho
do crescimento interior.
Acontece que elas não são fáceis de serem
conquistadas e nem se pode chegar a elas a
não ser por meio de uma longa e persistente
caminhada. Não existem atalhos e o trajeto
pode demorar anos. O caminho é, por vezes,
penoso mas ainda assim fascinante. Trata-se
de uma densa viagem para dentro de nós
mesmos, na direção do auto-conhecimento.
Quando estamos prontos, o parceiro
adequado acaba se mostrando diante de nossos
olhos. Não precisamos nos esforçar, sair de
nossas rotinas de vida e buscar ativamente o
encontro amoroso. Tudo irá acontecer quando
for chegada a hora e sempre é bom ter
paciência, já que esperar com serenidade é
uma das condições mais difíceis de
vivenciarmos.
Se tudo isso lhe pareceu muito racional,
lógico e frio, engano seu. Todos esses
passos vão nos acontecendo sob a forma de
emoções e vivências que se dão
espontaneamente, sendo que as reflexões
deverão servir apenas de roteiro para que
não nos sintamos tão perdidos. Desde a
adolescência experimentamos vários tipos de
relacionamentos e deveremos ir aprendendo a
entender tudo o que está nos acontecendo e
todas as nossas ações e reações. Primeiro
vivenciamos e depois devemos refletir sobre
o que aconteceu.
Assim, não existe real antagonismo entre
emoções e razão; uma complementa a outra.
Reflexões adequadas e consistentes
determinam avanços emocionais, que permitem
reflexões mais sofisticadas, geradoras de
avanços emocionais ainda maiores, e assim
por diante. Estabelece-se um círculo
virtuoso que deverá criar condições de
felicidade sentimental para todos aqueles
que se empenharem realmente na rota do
crescimento emocional.
A felicidade sentimental é a recompensa
acessível a todos os que completarem o ciclo
mínimo de evolução emocional.
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